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O
Cavaleiro da Concórdia
O
Homem do Outro Mundo
[Jorge Elias]
O
Cavaleiro da Concórdia nasceu da minha amizade com
o Mestre Manoel Jacintho Coelho, da sugestão dele,
bem como da cobrança de nossos amigos.
Reúne numa linguagem simples, sem pretensões
literárias, passagens da vida do Mestre Racional e
fatos ocorridos com ele, antes e após o surgimento
da Cultura Racional. Muitos destes episódios foram
contados pelo próprio Mestre Manoel e por certo teriam
sido varridos pelo tempo, não fosse a sua privilegiada
memória. Outros foram colhidos por mim aqui e ali,
nas minhas andanças, com muito carinho e interesse.
De
uma coisa estejam certos: O Cavaleiro da Concórdia
vai aproximá-los ainda mais do homem Manoel Jacintho
Coelho. Descortinará, através da leitura, um
universo mágico, repleto de colorido e energias. Vai
ajudá-lo a compreender a obstinação e
a inabalável coragem de construir deste escritor racional
e também a dimensão de seu trabalho: envolvente,
puro e branco como as roupas que vestem àqueles que
decidiram seguí-lo.
A advertência está feita.
Venha, vamos iniciar a viagem.
... não perdeu mais tempo, olhou o relógio,
acendeu o charuto, pegou o telefone e ligou para o Ministro
Afrânio de Melo Franco, no Palácio do Itamarati:
- Dr. Afrânio?
- Sim.
- Quem está falando é o Dr. Getúlio.
Estou desejando saber do senhor Manoel Jacintho Coelho, aquele
funcionário...
- Vou mandá-lo sim. E de resto, presidente?
- Vou bem, Dr. Afrânio. Estou recuperado e pronto para
servir ao nosso país.
- isso é ótimo, Dr. Getúlio, isto é
ótimo...
- Vou desligar, Dr. Afrânio. Não deixe de mandar
o Manoel aqui.
- Sim , presidente...
Muito não demorou, Manoel chegava ao Palácio
do Catete com seus quase dois metros de altura e mistério.
Imediatamente foi arrastado para o gabinete do presidente.
Ali, Vargas
o esperava ansioso, inquieto, caminhando de um lado para o
outro e fumando muito.
- Como vai o homem do outro mundo - exclamou sorrindente ao
vê-lo.
Depois veio abraça-lo feliz e agradecido.
- Não sei como escapei daquele terrível acidente,
Seu Manoel. Daquele acidente para o qual o senhor havia me
alertado e pedido para que tivesse cuidado. Mas reconheço,
poderia ter sido bem pior, bem mais trágico.
E recordou Getúlio:
- Quando ouvi o estrondo fechei os olhos. De olhos fechados
vi seu rosto. Tive consciência, à aquela altura,
de que não me livraria do acidente, mas que iria sobreviver,
porque o senhor estava ao meu lado. Mandei chamá-lo
para agradecer e também presenteá-lo.
Caminhou até a mesa e abrindo a gaveta, dela retirou
uma pequena caixa, embrulhada em papel colorido.
Disse:
- É um relógio, Seu Manoel. Um relógio
de excelente marca, uma pequena lembrança. Ao usá-lo,
o senhor vai se lembrar do seu amigo presidente e também
o quanto lhe sou agradecido. Saiba onde quer que eu esteja,
não vou esquecê-lo. E espero que o senhor esteja
sempre comigo.
Manoel sorriu, baixou a cabeça, estava emocionado.
Depois começou a falar:
- Nesta vida nada é verdadeiro, a começar pela
própria vida. Se a vida fosse verdadeira, ninguém
iria perdê-la, presidente. o que parece certo hoje,
amanhã será errado, porque vivemos uma fase
de desacertos, de desencontros. "O homem é um
vago bicho sem destino, nasceu sobre a terra sem saber porquê,
nem para quê."
- E como vamos saber o Porquê, seu Manoel?
- Daqui há dois anos, presidente, com o início
da Fase Racional, a fase do raciocínio, quando a humanidade
vai conhecer o mundo de sua raça e saber também
como voltar para ele.
A vida não terá mais segredos.
- O presidente sabe o Segredo da Vida?
Um raio de sol fraco e louro iluminou o rosto redondo de Vargas.
Surpreso e curioso, ele absorvia, em silêncio, as palavras
sábias de Manoel:
- A vida tem suas organizações muito claras
para quem sabe viver. Para quem não sabe, a vida torna-se
desorganizada e difícil. Os seres orgânicos se
degladiam, lutam, destruindo a própria vida. Para ser
bem formada, bem construída, bem equilibradaao bem
viver, a vida necessita que os seres orgânicos e as
organizações estejam paralelas e adequadas ao
modo de que se constitui a vida. O poder da vida está
naquilo que as organizações podem corresponder
para equivaler à vida.
- O que vale o vivente ter vida, viver e não saber
viver, presidente?
Indaga Manoel, respondendo depois:
- Ora, não vale nada, porquequanto mais se procura
organizar a vida, mais de desorganiza. E se desorganizando,
mais sofrimento vai colhendo. É como a maré,
sempre contra a maré, dentro do mar revolto. Assim
como as tempestades que reinam na vida do vivente, acabam
por naufragar-lh a vida, deixando-o a imaginar, disse:
- Quanto mais procuro bem, mais ele de afasta de mim, mais
longe fica, porque não enxergo o que vou fazer da vida.
E concluiu:
- Neste crepúsculo amargo, neste pesadelo infernal,
neste vale de lagrimas, fica o vivente
a pensar numa infinidade de coisas, sem saber resolver o ideal.
- Mas, seu Manoel, o que seria o Ideal no seu ponto de vista?
- Seria viver num mundo natural, verdadeiro, limpo, imenso,
puro, longe dos problemas, das humilhações,
das angústias e dos sofrimentos. Um mundo de união,
de concórdia e de fraternidade. Um mundo sem mentiras,
sem desconfiança, de equilíbrio e de virtudes.
E arrematou:
- No mundo de agora, a esperança que consola, aborrece
e amola.
Vargas sorriu. Balançou a cabeça, concordando.
Manoel despediu-se dele, prometendo voltar um dia. Além
dos ensinamentos de uma nova cultura, ele acabara de mostrar
a Vargas, a luz da razão, o caminho da eternidade.
Agora sim o Cavaleiro da Concórdia poderia partir para
dar continuidade ao seu trabalho de fazer renascer das trevas
o esplendor do Terceiro Milênio.
.....
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